Segunda-feira, Maio 18, 2009

Grande mundo pequeno.

Digo "mundo" quando quero me referir ao tudo. 
Mas cabe tanta coisa no tudo 
Que não sei se cabe no mundo. 
A lua ali em cima, por exemplo, não caberia nesse mundo que nem é assim tão miúdo.
A mesma lua que me inspira sonhos que não sei se cabem em mim. 

Digo "eu" quando me refiro a está criatura miúda que cabe no mundo.
"Eu" é palavra pequena que cabe no bolso
Mas há tanto mim dentro do eu,
Como sorriso grande em boca pequena, 
Como desejos secretos em urna de jogo.

Digo "sou" quando quero me impor.
Mas há tanta coisa no eu 
Que não sei se cabe no ser.
  

Terça-feira, Julho 29, 2008

Começo a não mais caber dentro de mim - minha alma escorre, transborda, me inunda e meu corpo é pouco.

Domingo, Julho 27, 2008

Vontade de me multiplicar, de viver as possibilidades que só me vem aos desejos. Pegar o tempo com as mãos e joga-lo onde quiser. Como uma pedra, o faria quicar na superfície dos rios; o tomaria pela mão para dançar uma valsa. Mas esse ingrato sempre foge de mim e me deixa só. Fica eu ali estagnado pela vontade de me mover, comigo e com meus sonhos.

Domingo, Junho 29, 2008

Teoria dos Sonhos - um romance ainda sendo escrito - Capitulo Dois: Pétalas ao Vento


Miel já dera boa noite a sua Avó Ana e à sua Tia Lourinha, se entregara aos abraços que antecedem a ida à cama, rira de sua fortuna enquanto escovava os dentes em frente ao espelho – um riso cheio de espumas. Noutro cômodo, beijou a testa de sua mãe e tomou o rumo do leito. Em seu quarto, observara a graça da flor encarnada deixada no batente da janela de madeira. Colocou-a lá para lhe enamorar pelas manhãs: a luz solar lhe beijaria as pálpebras nos primeiros vestígios de dia, e então ela abriria os olhos e flertaria a pequena púrpura, que lá estaria para ser a primeira a lhe sussurrar bom dia. Dormiu. Sonhou coisas que, havia muito, estavam recônditas; depois, ao acordar, se esqueceu de tais sonhos: as lembranças ressuscitadas voltaram ao túmulo. Na janela, o Sol iluminava a Anêmona, triste: enquanto noite, o vento silente a visitara e levara consigo suas pétalas. Jazia ali – agora sem aquele esplendor rubro, que voava, naquele momento, em pedaços, junto à poeira e ao vento.

Sexta-feira, Junho 27, 2008

Canto de Descoberta ( ou A Vinda e Ida da Tristeza, ou Dentro do Mundo há Outros Mundos)


Imagem: Audrey Kawasaki


A tristeza veio
Não quis ir-se
Ficou ali no meio
Dúvidou do que eu lhe disse

Qualquer coisa que eu dissesse
A tristeza me riria
Fiquei mudo, disse nada
Para ver no que daria

Silente, observei
Meu olhar já não era meu olhar
Meu pensamento já não era como outrora pensei
Era olhar de um triste, e um triste ruminar

Mas era ela uma menina bela
Quando ria, ria como criança
Quis eu rir o riso dela
Inda tive essa esperança

Meu olhar de triste
Percebeu tudo que existe:
Dentro do mundo há outros mundos
Dentro de uma vida há outras vidas

Só com outro olhar percebi o meu olhar
Só com outro pensamento, percebi meu pensamento
Em outro lugar, dei valor ao meu lugar
Em outro paraíso, percebi meu firmamento.

Pedi a menina: fique!
Foi-se rindo em tal momento
Veio outra em seu lugar
A me beijar o pensamento.

Sexta-feira, Junho 20, 2008

Máscara de Quimeras -- parte dois -- No Meio do Caminho

Sara adentrou o vagão aparentemente vazio. Não estava. Havia um homem ali, sentado num dos bancos. Inanimado -- dormia e sonhava com sua senhora em trajes de melancia a dizer coisas ruidosas. O apito soou e as portas fecharam-se. Sara postou-se num canto, em pé, e a viagem teve início. Dentro dela, as rodas das palavras vagavam os trilhos do pensamento. As imagens vistas pela janela lhe traziam idéias, mas logo elas ficavam para trás e tais idéias iam-se como fumaça. Notou-se em pé, e notou também o quase-vazio daquele vagão, o vagão que por sua vez murmurava seus barulhos de objeto que se move; tivesse ele lotado, desejaria ela sentar-se. Reclamaria de sua sorte, sem saber se o desejo em seu corpo era realmente seu ou se vinha do comum costume humano de querer do outro o impossível a si. Pensou isso e sentou-se então. A máscara em sua face, feita toscamente em madeira, adquirira a natureza complexa dos rostos que encontra-se num trem. Há nos tais olhares o indício do que há por dentro -- o sentimento toma forma na expressão facial, e comunica-nos, como quem diz o segredo dos outros à qualquer um, o que se passa no interior. Quem estivesse ali, naquele momento, veria em Sara e sua máscara um olhar que enxerga brilho nas coisas opacas, que dá cores as verdades gris, veriam-na como ela é e encantar-se-iam.

O homem com a cabeça inclinada, a boca aberta, a dar, vez ou outra, aqueles trancos que dão os que dormem ao sentir o corpo prestes a cair, e que sonhava com sua senhora a chutar-lhe ao céu -- que em seu sonho era um tanto molhado e habitado por peixes-estrela -- gritando-lhe o amor com voz de locomotiva, abriu os olhos e permaneceu neutro. Acordado ou dormindo, sua presença nem agregava nem subtraía. Era um homem de meia-idade, usava um suéter marrom e meias verdes. Com a face séria, fitou Sara e nada viu, olhou a janela e nada viu, observou o ar-condicionado do trem e também nada. Olhava tudo e só enxergava uma bruma espessa que escondia a verdadeira natureza das coisas.

Sara estava ficando entediada. Suas pálpebras começavam a pesar, e lhe pediam para que cedesse ao sono. A garota resistia, estava no meio do caminho, e queria aproveitar a viagem para divagar sobre quais pensamentos surgem quando não há nada a se fazer além de observar. Gostava de gastar seus tempos ociosos pensando nas ociosidades de seu tempo. Mas sabia que se continuasse ali estagnada se encontraria com seu lado onírico e inconsciente. Olhou para o lado e viu sentado o homem de meia-idade, não o havia visto antes. Foi ter com ele e ver no que daria.

-- Bom dia, senhor! -- disse.

O homem observou a face falsa de Sara com estranheza. Detestava estranhezas. Fingiu não notá-la. Sara se repetiu. Insistiu com os olhos. Sem se importar com o silêncio do homem, sentou-se ao seu lado. "Ou é mudo, ou é louco, ou pode ser que seja deveras normal!" pensou ela. "Ou estou louco, ou a louca aqui é ela, melhor ficar mudo" pensou ele. Sem nada se dizerem, se comunicavam. Ele fingindo não haver comunicação, e ela, sempre gentil, abria-se -- estando de máscara, não se sentiu envergonhada.

-- Vi lá fora, há pouco, pela janela, uma pipa com olhos de peixe! não a viu também? Mas ela foi-se, ou melhor, eu fui e ela ficou pra trás junto a criança que segurava a linha. Ambos ficaram para trás. Sigo agora no meio do caminho, e, mesmo com você ao meu lado, sinto-me só aqui. Ficou tudo demasiado sério e entediante, preferia a pipa que ficou lá pra trás: ela me sorria. Veja... Veja! Um desenho naquela parede!... ah! Foi-se! Não o viu? Digo-te então: era uma menina num balanço. Passou. Era lindo, como o tempo que se foi, na época em que todos os objetos me pareciam grandes na casa de minha vó, e haviam aquele montão de coisas quebráveis. Foi-se. Bom... eu é que fui.

O homem de meia-idade conteve o riso -- não queria ter com loucos -- e o maquinista anunciou a chegada. Era um homem deveras normal em sua meia-idade.


Quinta-feira, Junho 19, 2008

Meu Silêncio

Passei tanto tempo no silêncio, que para expor novamente minha voz terei de reaprender a falar -- não para dizer coisas que se diz de qualquer modo, mas para que quando uma palavra fuja, esteja se libertando das paredes da alma.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Máscara de Quimeras -- Parte Um -- O Riso

O rosto torto ria um riso neutro em sua mão, poderia ser aquilo a prévia de um choro, ou o limiar de uma gargalhada infinda. Ou ambos. Sara então levou a máscara à face e se perguntou naquele instante o porquê de fazer aquilo. Esperava o riso ou o pranto? Quais proporções ela daria aquela cara sem vida, àquele riso neutro e sem a maternidade de uma essência?

Caminhou com os pés no mundo e o olhar no céu. Percebeu que as nuvens podiam muito bem lhe ser um chão.

Viu, depois de tanto caminhar, seus pés a levarem à um jardim. Um jardim de pinceladas rápidas e cores impressionistas -- a atmosféra era lilás --, de grama verde e com música de bico -- como qualquer outro onde se desejaria estar. A garota, extasiada, foi por ali e virou a direita, pela alameda. O fim eram bifurcações, onde a esquerda levava de volta para a direita anterior, o fim era antes do meio, o meio, do começo: era um labirinto. Sara ia, vinha, e não chegava a lugar algum -- a não ser um ou outro em que já esteve outrora.

Era a enésima vez que passava pela mesma alameda quando avistou uma garota de olhos grandes e castanhos. "As crianças devem enxergar melhor os detalhes por terem olhos grandes assim!" -- pensou. A menina riu de sua máscara e caminhou, em passadas desajeitadas, para sua direção. O desconhecido para uma criança, ao invés de repelir, atrai. Tinha, a menina, um riso doce, e Sara, por isso, sentiu-se também atraída.


-- Olá mocinha! -- disse Sara.

A menina riu.

-- Qual seu nome? -- perguntou Sara.

A menina riu.

Sara pensou que o motivo do riso fosse seu falso rosto. Entrou na personagem que criara ao talhar sua máscara e rodeou a garota num movimento caricato de palhaço. Levou então suas mãos ao bolso da calça e de lá retirou nada -- o que, pelos olhos grandes duma criança, pode ser qualquer coisa.

A menina riu novamente.

Logo, pequenos pés se apoiavam na ponta dos dedos, e um braço diminuto se esticava para que sua mão pudesse alcançar o não-sei-o-quê na mão de Sara. O peso do ar pareceu se apoiar na concha que a menina formara com os dedos. Seus olhos brilhavam fitando aquele nada emoldurado de sonhos. Os de Sara observavam curiosos. A menina correu saltitante, como se fosse mostrar o novo presente à alguém. Sara a seguiu. O lá e cá parecia fazer mais sentido no ziguezaguear da pequena; não muito depois, a menina havia sumido. Sara estava no fim do labirinto e no começo de um novo caminho.

Sábado, Março 15, 2008

A Máscara de Quimeras


As cores de klimt possuem um pé no real e o outro num faz de conta inefável. A roupa, o fundo, vestem-se ambos duma vertigem sonhadora, dum ludibriar intenso e cheio de vida. A pele das moças sim, é o palpável. Pode-se quase tocá-las... Sara tinha, assim como Klimt, essa base fixada nos dois mundos: o real e o imaginado. Pode-se-lhe apalpar as mãos , entrever o riso, abraçar o corpo; o resto é dentro -- e o que está dentro é sonho.

Segunda-feira, Fevereiro 18, 2008

Vestindo-se de um Rosto



Guardou-o no canto ao lado da caixa de livros: o pedaço de madeira -- que fora antes um tronco morto, que fora antes uma árvore, antes ainda, uma semente; e que jazia no interior aconchegante de seu quarto, junto a poeira e aos instantâneos-tempo-estagnado-em-mural-de-parede --. Pois tivera, no momento de seu tropeço, uma idéia singular. Dessas que surgem para acalentar o espírito devorador de quimeras.

Precisaria de uma faca, ou qualquer outro objeto cortante, para transpor ao real o que fazia parte desse lugar que há dentro de nós e fora dos outros.

Ela deixaria de ser ela. Só por brincadeira. Sara se livraria de si como quem se desnuda para um banho: O Ela sendo a roupa, sua nudez sendo a Coisa-em-si livre do Eu. Daria à si mesma a oportunidade de fugir ao silêncio da existência, ou à inexistência completa de um ser. Livre de Sara, ela poderia ser qualquer outra(o), dentre tantos(as) outros(as). Procurava a faca ou qualquer lâmina fria que lhe fosse o caminho para seu dêsejo.

Atravessou portas e abriu gavetas na cozinha.

Logo, um sorriso singelo fazia-se imagem na supefície reflexiva da lâmina. Aquele riso contido, que tenta esconder uma explosão dentro do corpo. Sara controlava sua vontade de rir, para não parecer uma louca, mesmo não havendo um olhar curioso por perto, pronto a fazer tal julgamento. Ela os imaginava inconscientemente: os olhares. Lhe censuravam onipresentes. Sem perceber, Sara era multidão. Uma multidão solitária. Mas iria agora se livrar de todos. Pensou: "Será que me livrando de mim terei a oportunidade de ser uma eu verdadeira, liberta de toda a censura que dou aos meus impulsos?"

Cavacos de madeira pulavam como suícida alçando vôo. Sara começou a talhar uma face torta no pedaço de madeira que guardara em seu quarto. Um rosto todo rústico que logo seria o seu. Percebeu, porém, que uma máscara não a impediria de ser ela mesma: seria mais um acréscimo do que uma subtração. Aquela máscara seria apenas mais uma, das váriadas que já possuia em sua fisionomia e em seu espírito. Notou, naquele momento, a multidão que habitava dentro daquele corpo que julgava só seu.

Ainda assim, queria fugir. Era aquilo tudo uma brincadeira, mas, uma brincadeira que levava muito a sério.

Desta vez não guardou o riso de satisfação que teve ao findar a máscara que agora estava em suas mãos. Enamorou sua nova fisionomia qual Narciso. Era certo que precisava ainda de uma cor, e, talvez, de um melhor acabamento. Mas estava orgulhosa -- lembrava o artista, que aprecia sua própria óbra quase sem acreditar que sua alma fora a criadora, e sua mão a ferramenta tão precisa na imperfeição. Enfim o fim. Vestir-se-ia de uma nova Sara, e aquele novo rosto tinha à ela a feição que deve ter a poesia quando imagem. Talhara para si um novo espírito.

Despiu-se finalmente do Ela que havia nela, e vestiu-se daquele rosto torto; com o mundo pronto para ser um palco e um palco pronto para ser um mundo.

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Conjecturas Desimportantes



Passos levam sempre à um lugar. Quem a guiava era o léu. As vezes deixava-se ir, pois o que realmente queria era estar indo, e não chegar. A moça chamava-se Sara. Ela tinha um sobrenome belo, contudo, não gostava de dize-lo, tão pouco que o dissessem -- achava-o feio. Por isso Sara apenas. Somos um todo, mostramos a parte. Vêem de nós apenas uma fração, o que achamos feio e sujo em nós, jogamos embaixo do tapete para que ninguém mais veja. Os olhos dela viam mas não enxergavam. Caminhava ensimesmada.

Num instante preciso Sara tropeçou num tronco jogado no chão.

Não era um tronco grande, nem por isso achar-se-ia pequeno; era uma coisa diminuta para a função de tronco, grande para função de galho, parecia maior ainda para pés que caminham sem o cuidado de um olho. Sara não machucou-se -- sequer chegou a cair. Apesar disso, o susto deu-lhe um daqueles enfurecimentos relâmpago. Amaldiçoou o pedaço de madeira como se ele fosse o culpado de estar ali. Respirou fundo e veio-lhe de sobressalto uma lucidez mais clara que a luz de sua fúria repentina. Para um fragmento de tronco estar ali, era necessário antes alguém tê-lo jogado. Dizer-se-ia que o réu é a mão descuidada. Há nisso um equívoco no pensar: para que a mão pudesse jogar aquele pedaço ao chão era necessário antes que ele se tornasse um pedaço -- o tronco foi, antes de ser um pedaço, parte que completava um salgueiro; era o corpo do salgueiro que é o salgueiro, assim como um braço é a parte do nosso corpo e nosso corpo é nós mesmos. Deveria-se, ao invés de dizer "meu corpo", dizer "eu-corpo"--. Quais mãos teriam, então, cometido o delito de cortar aquela madeira tornando-a pedaço inexpressivo e sem vida? Numa conjectura mais profunda, Sara percebeu que, para a mão criminosa cometer seu ato pérfido, haveria antes de tudo que crescer uma árvore. Mãos caridosas de um corpo sorridente, seja ele da natureza ou de uma alma pura e anõnima, acrecentaram à terra uma semente. A terra agradeceu a bondade e, como que por sinal da gratidão, gerou vida. Sara encontrou nesse pensamento o limiar do tropeço. Se mergulhasse um pouco mais fundo enxergaria mais coisas nesse oceano.

Nadou até a superfície do pensar e tomou fôlego. Um vento leve lhe esfriou a cabeça e a fez pensar em outra coisa -- continuou caminhando, de olhos vendados para o mundo e abertos para dentro de si.

Terça-feira, Janeiro 29, 2008

Felicidade Nua


Por que ser poeta apenas nas tais horas tristes?
Prantear consolo de felicidades idas.
Transbordar-se apenas: destino do poeta...
Eu não!
Quero um cantar alegre de chuva em mata nua.

Ser poeta é desnudar-se ao mundo,
Desnudo-me inteiro com o riso em verso.

Que a inspiração venha ao todo sem ser exclusiva
Dessa solidão, que molha a face e inunda a iris,
E que em meu brilho vejam,
Compreendam sem palavras e murmúrios ditos,
A felicidade a abraçar-me nua!

Terça-feira, Janeiro 22, 2008




Ela era antes uma estrela. Brilhava no céu nua e só, enquanto um ou outro olhar lhe fitava em amores ou tristezas. Desceu então desse céu vazio, dessa solidão escura e eterna noite, e, no declive rumo o chão, alumiava de si uma calda - como rastro de lampião no escuro -; os olhares que lhe viam versejavam, se tristes, e desejavam, se amores.

Perdeu na terra seu fogo e seu mistério; sua nudez tomou a forma de mulher.

Sábado, Janeiro 19, 2008

Eu-Sertão

Hoje contemplei a estrada, viajando no caminho que ela oferece, e ouvindo poesia matuta na voz dum cantador que desconheço... Estou no meu sertão e vejo que há um sertão em mim. E a arte é quem me oferece a água que mata essa minha sede; e o amor é que faz chover dessa água que me orvalha.

Sexta-feira, Janeiro 18, 2008


Escrever em um blog é um improviso de Jazz; as letras saem como notas e cada frase compôe uma melodia recém fabricada. Perdõe os erros no dizer, mas saiba que meu erro é maior quando não consigo expor com as palvras a essência do que sinto no momento em que escrevo. Sou assim, torto mesmo, e meu dedo é cheio de calos... deste modo que se faz a música - , deste modo que se faz a vida... muitos calos para uma melhor melodia.

E há coincidências nas coisas da vida, como uma nota que se repete. Pedi para uma garota de sorriso belo que me enviasse uma imagem que ela goste para publicar aqui. Eis Klimt novamente. Não sei se o que vejo de encantador em Klimt é a graça de sua ilusão-sonho ou se é o belo que há em suas faces reais. Talvez ambos, o Sonho e o Real. Como na vida, ambos sublimam as coisas existindo concomitantemente.

O que escrevo tem o som triste e roco de uma gaita.

Quarta-feira, Janeiro 16, 2008

Pés Leves

Há num lugar uma garota que caminha em passos leves para não pisar em formigas. Uma moça que entendeu a grandeza do diminuto, e vaga sem tirar os olhos da via.

Terça-feira, Março 20, 2007

Espelhos

Há esse reflexo mudo.
Pequeno feiche de silêncio emoldurado.
Pedaço irreal que há de mim,
Mas o que há em mim de real
Sombra e luz não fazem ver.

E esse futuro vestido de vestal,
Esperando arrancar-lhe a pureza.
E a noite, que tece na mente a certeza
Do que não se deve esquecer.

À cada um há...
Uma extensão terna de sí mesmo,
Que se reflete em cada olhar,
Que se espande em cada ausência
E que trás consigo na presença
Essa certeza, que não se deve esquecer.

Quarta-feira, Janeiro 10, 2007

Palavra e Pensamento

Quero uma palavra que valha por tudo! Mas a palavra é limitada, caminho nela e em sua borda à um abismo. Posso me jogar nesse abismo, que é minha essência, mas não posso te levar comigo. Essa é nossa prisão. A jaula que nos impede de compreendermos uns aos outros.

E quando se encontra alguém que trancede o sentido de sua palvra e lhe enxerga o âmago?
Ama-se.

Mas o que é o Amor, senão uma palavra? Como saber que o que sinto é mesmo que você sente confiando o abstrato ao abstrato? Não se pode saber. Oh, prisão! Amo e como amo, mas como fazer-lhe sentir o meu sentir?

A humanidade caminha nesse mundo inventado, sem saber na verdade o que ela é e pra que ela é! Quero me livrar do pensamento, por um momento apenas, mas não consigo atingir tal liberdade. "pensar é estar doente da cabeça".

Essa vontade de me livrar do pensamento é fruto de uma vontade maior, de que o mundo possa ouvir meu espírito e não apenas minha voz, não podendo atingir tal intento, resta-me o amor. E quem amo torna-se meu mundo.

Oh, como amo!


Tudo quanto penso,
Tudo quanto sou
É um deserto imenso
Onde nem eu estou.

Extensão parada
Sem nada a estar ali,
Areia peneirada
Vou dar-lhe a ferroada
Da vida que vivi.

[...]

F. Pessoa

Sexta-feira, Dezembro 29, 2006

A Lua e o Espelho

"Onde está a nossa Lua?"

Ariane observava, de sua janela, o céu, em busca daquela que naquele momento descumpria sua promessa de embelezar à noite; escondia-se canhestra por detrás das nuvens. Haviam noites em que a garota olhava para seu imponente brilho com um ar admirado, contudo, não era a voluptuosa luminosidade que à encantava. "Há algo mais belo escondido na sombra!" Pensava."Algo que ninguém pode ver. Mas eu sei: Está lá! Esperando pela alma perquiridora de um astronauta. Posso ver em meus sonhos!"

Ela preferia viver no mundo das coisas que ninguém nota. Cultivara, em seu espírito, um solene deleite pelas singelidades. Gostava de se equilibrar nas bordas das guias, fechava os olhos ao abraçar o vento, deixava-se molhar em dias chuvosos para assim sentir, como ninguém, o que é estar viva.

A música começara.

Subitamente lhe surgiam pensamentos que ela tentava agarrar como um caçador de borboletas com sua rede. Mas pensamentos são como areia, escorrem das mãos, deixando-as apenas sujas com alguns poucos grãos. Dançava sozinha em seu quarto. Girava. A areia escorria. Girava! Não se pode parar um momento. O Tempo é devorador de todas as coisas; a Besta Maldita que consome o nosso eu e torna-o outro para em seguida consumi-lo novamente. Mas por que a música é dividida em vários instantes distintos que, ainda assim, parecem ser um único? Há uma harmonia que faz todo esse emaranhado de notas, dispostos em diferentes espaços de tempo, soarem não como um conjunto e sim como algo singular. Girava. Ariane deslocava sua essência em torno de sí própria. Notara a existente harmonia em seu ego pretérito, presente e o futuro. Estava viva!

Não sabia ao certo se isso era um mérito, pois desconhecia a antítese do viver. Desconhecia outra forma de... de... De existir?! Dançava conforme a música.

Girava!

E então parou.

Em seu quarto, seu pequeno refúgio, havia um espelho ao canto, na parede. Um pedaço de mentira que refletia a verdade. Parou para olha-lo. Fitou o próprio olhar. Buscou a alma perdida no brilho de sua face.

"Afinal, quem é você?" Perguntou.

"Sou tantas e a mesmo tempo uma apenas, fica até dificil de lhe responder." Disse-lhe a Garota que estava do outro lado. "Sou um paradoxo." Continuou. " Pois Argos me observa e cada olho dele enxerga-me sob um aspecto."

"E pode me dizer ao menos quem eu sou?" Indagou Ariane."Diria e ainda assim tu não saberia a resposta, e perder-se-ia no desvario. Quem és? Por que és? Os pontos de interrogações são infindaveis. Digo-lhe apenas que você é uma escultura formada, minunsciosamente, pelas mão do ambiente que lhe influenciou. És um reflexo assim com sou de ti neste momento."

"Então sou como a Lua que exibe seu brilho à todos mas que no entanto possui em seu âmago uma face oculta a espera de algum astronauta?"

Silêncio.

Ariane esperou a resposta. Esperou. E esperou...

Domingo, Julho 02, 2006

O Vôo De Gabriele

"Isso é um sonho!", pensou Gabriele.

De fato, aquilo não se parecia um sonho. Tudo estava em seu devido lugar. O apartamento, onde morava na realidade, assemelhava-se perfeitamente ao local em que se encontrava. As coisas seguiam perfeitamente a lógica da mórbida rotina. Não havia sinal algum de perfídia. Contudo, uma estranha inquietação apossava a mente de Gabriele.Ela queria voar.

Sim, voar!

E qual empecilho a impediria de realizar tal façanha já que ela estava em um mundo onde tudo é possivel? Decidida, a destemida Gabriele subiu as escadas que a levariam ao topo de seu prédio -- detestava mesmo em sonhos os elevadores. Carregava consigo, degrau por degrau, a esperança. Cada passo rumo as alturas era uma batalha vencida. Ao atingir o cume, postou-se na borda da estrutura de concreto, levantou os dois braços, fazendo-se lembrar o sublime presente que o Rio de Janeiro recebera da França. Fechou os olhos e sentiu seu coração bater cada vez mais rápido. O vento lhe acariciava o rosto e ela sorria. Finalmente havia descoberto a sensação de liberdade.

Pulou.

"Isto é um sonho!"

É certo que ela estava enganada, mas sabe-se que a jovem e intrépida garota nunca mais acordaria desse não-sonhar.

Pela primeira vez Gabriele vôou.